24 de out de 2011

Morrer, e renascer mais humana a cada novo dia.

Ela não podia mais viver de sonhos. O tempo havia passado.
Olhar distante, coração em ritmo lento, e a partida marcada... Quantas recordações!
Hoje não tinha dúvida do quanto havia desperdiçado sua vida. O vento soprado em seu ouvido trazia palavras que havia deixado no ontem, mas que lhe agonizavam ainda hoje.
Amara uma única vez em toda a vida. Daqueles amores que não precisam ser revelados, mas que estão ali, entre linhas. Presentes de forma mágica e inexplicável.
Ao longe, num passado remoto, apagado com a neblina do tempo, conseguia visualizar aquelas tardes em família... Risos fáceis, histórias animadas, e a voz de uma garotinha ecoando pelo ar, contando seus contos de fada, suas queixas e gostos sempre tão peculiares. O que os anos não fizeram consigo, pensou. E sentiu saudade daquele corpinho tão miúdo, mas que lhe permitia correr por onde quisesse.
A vida não havia sido fácil! Alto e baixo, amor e ódio, alegria e tristeza, risos e lágrimas... Tudo sempre havia lhe sido entregue assim. Um pé aqui, e o outro lá.
Mais do que em qualquer outro dia, desejava poder olhar cada um dos rostinhos de seus amigos. Guardar cada expressão, cada olhar, cada gesto... Aprendera com o destino que um dia as pessoas partem, e gostar delas não impede que isso aconteça.
Em poucos meses, dias ou horas, como saber?! Deixaria essa vida para nunca mais voltar. Não voltaria a ser aquela garotinha que sonhava em ser bailarina. Nem aquela jovem que adorava passar horas deitada debaixo de um céu estrelado imaginando como seriam solitárias as estrelas. Menos ainda aquela mulher que em segredo escrevia seu diário, criava seus próprios personagens, jamais conhecidos por qualquer um que fosse, mas que lhe ajudavam a enfrentar seus medos, seus fantasmas.
Nada mais importava agora... Alguns precisavam partir, para que outros pudessem chegar! O que era a vida senão um grande desencontro?!
Sorriu, e pela última vez sentiu uma sensação boa.
Um último suspiro e já não pensava mais... Dores, desconforto, solidão, desprezo, desespero... Tudo partira!! Para além... Além do que os olhos pudessem ver, os corações pudessem sentir, e os mundos pudessem acreditar... Ela partira, como se nunca tivesse chegado.