10 de dez de 2011

A Hora da Estrela

Sonhava em ser uma atriz de cinema. Representar milhares de personagens em sua própria vida, e correr o mundo contemplando tantas maravilhas.
No entanto, nem mesmo em sua própria vida conseguira ser a atriz principal... Como coadjuvante viveu cada dia.
Tola, solitária, doce e obediente, alimentava a lembrança de uma infância triste e uma saudade do que poderia ser e não foi.
Vivera de acordo com o que os ventos do cotidiano lhe sopravam... Pobre, humilde, honesta e incapaz de dizer suas vontades.
Ela vivia os dias como se cumprisse apenas um roteiro, que mais cedo ou mais tarde chegaria ao fim.
Das pessoas a sua volta o único sentimento que despertava era a pena... Não conseguia levantar os olhos para sequer receber um elogio.
Como um cachorro que é cachorro sem saber, ela não questionava, e se questionada responderia “Já que sou, o jeito é ser.”
Sem sonhos, sem expectativas, sem vocação e sem objetivos. Acreditava mesmo que foi “soprada” no mundo. Um cisco soprado do olho teria mais importância, diria.
Seu único luxo era ir ao cinema uma vez por mês. Sua grande paixão, “goiabada com queijo”. E seu único prazer, acordar aos domingos bem cedo para ficar mais tempo sem fazer nada.
No cais do porto, olhando a distância os chamados dos navios, sentia o coração apertar. Não sabia explicar, tampouco isso importava. Se havia algo novo para experimentar em sua insignificante vida, isso lhe bastava com toda a certeza.
Namorou certa vez, mas do tamanho de sua simplicidade era o tamanho do interesse desse rapaz. E assim, como algo que parece que nunca existiu, esse romance teve um ponto final... Ela não chorou, não brigou. Apenas pensou que assim devia ser.
Não sabia, mas seria protagonista da sua vida. Brilharia como sua atriz de cinema favorita. E por incrível que pareça, teria plena consciência disso tudo. Pena que seria tarde demais, pena que seria seu último dia. O dia de sua morte.

P.S Hoje, aniversário de Clarice Lispector, eu não poderia deixar passar em branco. Alguém que viveu com tanta intensidade suas escritas, e nos permitiu viver junto com ela, só poderia ser alguém muito especial.
Esse texto que escrevi, descreve um dos personagens de Clarice. A garota Macabéa da obra “A Hora da Estrela.” O último livro escrito por Clarice, e que talvez tenha muitas características com seus últimos dias de vida. Sei que o que escrevi não está a altura do que é o livro, mas se comparado ao que é esta escritora, isso seria uma tarefa impossível.
Quantas Macabéas existem nesse mundo? Quantas pessoas não vivem suas vontades, nem tampouco ditam as regras de sua vida? Vêem seus sonhos passarem, vêem os navios partirem do cais do porto, e embora sintam seus corações apertados, não têm coragem de correr até lá e viver essa aventura.

A vida pode ser bastante triste ou bastante alegre. Depende de como você escolhe vivê-la.

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